Um conversa entre o Dr. Edson Sampel e a professora dra. Bacarji, autora do livro

 

***

Dr. Sampel. Lendo seu livro, percebemos quão importante é o período de formação do futuro padre. Quais os pontos mais importantes dessa formação, no que diz respeito à constituição emocional e psicológica do candidato?

Professora Arlene Denise. Em primeiro lugar, é necessário que o candidato tenha as condições para ser trabalhado pela formação. Normalmente hoje, na maioria dos casos, investe-se muito na formação, mas, infelizmente, nem todos os candidatos possuem a natureza que possa supor a graça e uma formação efetiva. O ponto mais importante é “sentir” e “saber detectar” se o candidato não possui transtornos de personalidade com patologias de superego ou perversões. Pois fora estas constituições psicológicas, o restante fica mais aberto à graça e à boa formação.

Dr. Sampel. A senhora crê que a denominada “vocação” do candidato, isto é, um “chamado de Deus”, seja realmente um ponto importante na caminhada rumo à ordenação?

Professora Arlene Denise. Claro que sim. O problema hoje é que muitos que se dizem vocacionados não o são. São, na verdade, pessoas com problemas afetivo-sexuais ou de personalidade, que veem no sacerdócio um chamado, por ser ele conveniente à sua patologia ou necessidades afetivo-sexuais. Esse é o problema. Não se pode mais acreditar que uma pessoa é chamada somente porque ela se “sente” chamada. Isso pode ser um engodo, inclusive para ela própria.

Dr. Sampel. Quais são os meios dos quais o formador pode dispor para detectar casos patológicos e despedir o candidato o quanto antes?

Professora Arlene Denise. Primeiramente, o formador precisa ser sério e saudável. Depois, ele precisa de estudos nessa área que sejam de linhas sérias e eficazes na detecção de patologias. E em terceiro lugar, o formador, além de ter que possuir formação especial para isso, ser homem de boa vontade, precisa ter coisas como “intuição”, “percepção”, “sensibilidade”, para poder “sentir” o candidato que tem problemas e que é sedutor, manipulador, cheio de artifícios, pseudo-humilde, enfim, pseudovocacionado.

Dr. Sampel. Professora, a senhora crê que os distúrbios que levam à pedofilia – embora, graças a Deus, este fenômeno seja mínimo entre os clérigos no Brasil,– possam ser detectados durante o período de formação?

Professora Arlene Denise. É difícil, pois no período de formação, o candidato é muito jovem, a atuação pedofílica dele pode ser mínima nesse período da vida, e vai se manifestar bem mais tarde de forma aguçada.  Na verdade, o que é possível perceber é que há algo de errado na sexualidade do candidato, e mesmo assim é importante saber que estas pessoas normalmente fingem muito; fazem de conta que se apaixonam, namoram para disfarçar, arrumam casos, muitas vezes, totalmente fajutos para enganar os superiores e o povo, principalmente em épocas de seminário. Mais uma vez eu realço que uma das maneiras de se detectar que alguém tem algum problema sexual é a intuição e a percepção do formador de boa vontade, que não seja iludido por “bonismos” (tudo é bondade, misericórdia; pode ser resolvido, convertido etc.).

Dr. Sampel. É possível viver o celibato (estado de solteiro) de forma casta e saudável, conforme admoesta a memorável encíclica Sacerdotalis Celibatus, do beato papa Paulo VI?

Professora Arlene Denise. Com certeza. O celibato bem vivido por muitos é uma graça  especial. Mas para isso é necessário que a pessoa seja saudável, tenha maturidade afetiva e capacidade de sublimação, coisa que nem sempre tem sido comum encontrar na sociedade atual.

Dr. Sampel.Qual a sua intenção e o que a levou a escrever esse livro?

Professora Arlene Denise. A intenção é trazer um pouco de entendimento a algo que tem acontecido em nossa Igreja e que muitos não entendem o porquê, com bases teóricas e de experiência na Igreja, e o que me levou a pensar nisso foi a tristeza e a angústia de, em 25 anos de convívio no meio clerical, ver que ainda existem eclesiásticos que minimizam os problemas em busca de “vocações”. Enfim, foi por puro amor à Igreja. Isso é o que sempre moveu todas as minhas ações e minha opção de vida.

Dr. Sampel.Como a senhora se posiciona entre ser conservadora ou progressista, pois parece que o livro deixa isso um tanto quanto neutralizado?

Professora Arlene Denise. Fiz questão de deixar esse aspecto de forma neutralizada no livro, pois quando ao mesmo tempo em que sou bastante ortodoxa, também acho que a ortodoxia serve para as coisas que realmente são essenciais na Igreja. Não penso que o foco deva ser desviado. Penso que todos deveriam estar preocupados com estas questões abordadas no livro e nada de falta de unidade e brigas por coisas que não têm mais importância. Percebo que muitas brigas inúteis são geradas no seio da Igreja com esses rótulos de conservadores ou progressistas, os quais já estão ultrapassados para designar uma pessoa séria. O que existe são descambações dos dois lados, as quais eu particularmente abomino das duas partes.

Dr. Sampel.Em resumo o que a senhora poderia dizer ao leitor sobre a forma como aborda o tema para que ele tenha uma boa leitura?

Professora Arlene Denise. Primeiramente, na introdução, faço alguns alertas para bem compreender o objetivo meu e do livro; no primeiro capítulo estão as bases teóricas e nos demais capítulos estão os aspectos eclesiais propriamente ditos. O leitor que quiser ir direto ao assunto pode pular o primeiro capitulo e depois voltar somente para tirar suas dúvidas do embasamento teórico. Já para os leigos que têm filhos pequenos ou pretendem ter, o primeiro capítulo é de suma importância.

Dr. Sampel. Professora Denise, muitíssimo grato pela entrevista. Tenho certeza de que os estudos que a senhora vem realizando se traduzem em excelente subsídio para os formadores de presbíteros no Brasil.

Professora Arlene Denise. Eu que agradeço ao senhor e à agência de notícias Zenit pela oportunidade de discorrer sobre um tema de tão grande importância. Obrigada.

0
0
0
s2sdefault