Os Cátaros: Quem eram?

 

 Os cátaros (puros) eram uma seita medieval dualista: condenavam a matéria como sendo mal e, por isto, eram contrários ao matrimônio e permitiam o suicídio.  Os membros da seita percorriam as regiões do Sul da França e do Norte da Itália, pilhando granjas e fazendas e semeando a desordem.  Em suma, ofendiam não somente a fé cristã, mas também a ordem
pública.  Foram reprimidos por uma Cruzada.

Via Internet está sendo divulgado um artigo intitulado “Roma e os Movimentos Herétlcos”, de vários autores sob a orientação de Carlos Antonio Fragoso Guimarães, interessado na Universidade Holítisca Internacional e no Grupo Espírita Bezerra de Menezes. Entre outros temas, aborda longamente o Catarismo ou a heresia dos cátaros (puros), fazendo
afirmações discutíveis e silenciando outras, que seriam impor­tantes. Eis por que, a seguir, comentaremos dizeres do artigo em foco.

É de notar, aliás, que tal artigo tudo considera do ponto do vista político, como se o Papado tivesse disputado poder e hegemonia na Idade Antiga e na Medieval. Os Cátaros aparecem nesse cenário como aque­les que ameaçavam o prestígio político da Sé de Roma. O  artigo será comentado em três etapas.

 

1.   Quem eram os cátaros?

 

1.1     O texto do artigo

“Nas palavras da igreja Romana, no século XII a região de Languedoc (Sul da França) estava infectada pela heresia de um movimento nocivo chamado catarismo, “a lepra louca do Sul”.

Embora fosse sabido por todos que os adeptos dessa heresia eram essencialmente pacíficos, eles constituíam uma grave ameaça a autori­dade romana, a mais grave que Roma encontraria nos séculos seguintes até a chegada de Martinho Lutero. Por volta da 1200 havia realmente a possibilidade de que o  catolicismo romano fosse substituído, como forma predominante de cristianismo, no Languedoc, pelo catarismo, que estava se irradiando para outras partes da Europa”.

1.2.  Comentário

“Os cátaros eram essencialmente pacíficos”? Não é o que dizem as melhores fontes históricas. Quem eram eles?

Os cátaros são herdeiros do dualismo oriental maniqueu segundo o qual a matéria é má e o espírito bom. Começaram a aparecer no Norte da Itália e no Sul da França no século XI, opondo-se violentamente as instituições vigentes, baseadas sobre a família (consórcio carnal) e a ordem civil (ligada a valores materiais). As origens dessa seita não nos são conhecidas com precisão. O fato é que no século XII estava plenamente instalada no sul da França, com suas igrejas e sua hierarquia, tendo a cidade de Albi   como um dos seus principais centros (donde o nome de albigenses dado aos cátaros).

Que ideias moviam esse grupo?

a) O princípio básico é o dualismo, do qual havia duas modalida­des, sendo a primeira a mais comum:

– o dualismo (catarismo) absoluto professa haver dois princípios eternos:  um bom, e outro mau. O primeiro deu origem ao mundo invisível dos espíritos e das almas; o segundo, ao mundo material visível. A matéria é essencialmente má.

– o dualismo mitigado afirma que o princípio mau regente desta mundo não é um deus, mas Lucifer ou Satanás, o anjo decaído.

b)      O ser humano é um composto de corpo material a alma espiritual; donde se segue que a alma está num cárcare, do qual deve libertar-se mediante expiação de suas faltas.

c) O Deus que se faz presente no Antigo Testamento é Satanás, o qual assumiu aparências de bondade para ser mais facilmente aceito pelos israelitas. Alguns setores do catarismo adotavam um ou outro livro do  Antigo Testamento ou ao menos as citações dos mesmos ocorrentes nos escritos do Novo Testamento.

d) Jesus Cristo não era Deus nem propriamente um homem, mas um anjo que tomou aparência da homem (teoria esta dita “docetismo”).   A finalidade da sua vinda à Terra não foi a salvação da humanidade mediante desagravo a reparação, mas foi anunciar aos homens que existe um Princípio bom, que vive nos céus e se encontra também em cada ser humano.

e)       Disto tudo se segue o dever rigoroso, para os iniciados, de guardar a castidade perfeita. Nada seria mais censurável do que o casamento, pois este favorece a união carnal a
procriação … procriação cuja consequência é aprisionar as almas na matéria. Tais idéias se traduzem bem no seguinte episódio:

Por volta de 1004 um leigo de Vertus, região de Châlons, chamado Leutard, pregava publicamente o dualismo cátaro; julgava ser ilícito o casamento, a tal ponto que ninguém se poderia salvar caso permane­cesse no estado conjugal; ele próprio despediu sua esposa. Em sua luta contra a matéria quebrou os crucifixos e as imagens dos Santos. Negava a autoridade religiosa e
incitava os camponeses a não pagar o dízimo. Chegaram mesmo a pegar em armas sob a chefia de Leutard.  A população local denunciou Leutard ao Bispo de Chalôns como herege e desordeiro. Naquela época, porém não se aplicavam penas físicas aos hereges; os doutores da Igreja queriam convencê-los com argumentos e não com as armas de modo que o Bispo ciente do caso Leutard, resol­veu absolvê-lo como louco !

f) Outra consequência das premissas atrás expostas era o desprezo da vida humana e o desejo de escapar dela; daí a prática da endura ou do suicídio, fosse pela fome, fosse de modo violento.

g) Os cátaros se organizaram em “Igreja”, que compreendia duas categorias: os perfeitos e os crentes. Os perfeitos eram os que havi­am recebido o consolamentum ou Batismo.  Caso permanecessem fiéis aos seus deveres e, em particular, a castidade (celibato), teriam morte tranqüila a sua alma estaria para sempre libertada dos entraves do cor­po.
Poucos eram os que recebiam o consolamentum enquanto goza­vam de boa saúde, pois este exigia longa preparação; submetia o indiví­duo a rígida Moral e a gravíssimas ameaças caso não a cumprisse. Eis por que a maioria dos cátaros ficava na categoria dos crentes e se com­prometiam a receber o consolamentum no fim da vida.

h)      0 culto cátaro era simples.
Os chefes alimentavam a fé dos cren­tes mediante pregação a alguns ritos, entre os quais o apparelhamentum ou serviço, espécie de confissão geral, após o qual um dos perfeitos impunha uma penitência. Mais freqüente era o rito da adoração, que consistia em ajoelhar-se aos pés de um perfeito para pedir-lhe a bênção. Eis o que se lê sobre a doutrina dos cátaros em fontes históricas objetivas e seguras. Daí a pergunta: serão fidedignas as afirmações da equipe de Carlos Guimarães segundo as quais os cátaros eram reencarnacionistas e professavam um Deus “não puramente masculino, mas como tendo, igualmente, princípios femininos”.  – Que significam estas expressões aplicadas a Deus? Entre outras coisas, falta clareza da linguagem. Deus é espírito puro (os cátaros que o digam!); por conseguinte nele não pode haver elementos, que são coisas materiais. Por isso também Deus não pode ter sexo; não é nem masculino nem feminino, pois sexualidade implica corporeidade. Nós lhe damos, por convenção, os títulos de “PAI” e “MÃE”.

2.  A Cruzada anticátara

2.1.  O texto do artigo

“Em 1209 um exército de mais de 10 mil homens desceu do norte da Europa em direção ao Languedoc, no sul da França, para executar uma das maiores carnificinas da história humana.  Na guerra que se seguiu, a população tomou a espada e defendeu com ênfase os cátaros contra o despotismo católico.  Todo o território da região foi pilhado, e as cidades e  vilarejos arrasados sem dó nem piedade. Só na cidade de Béziers, por exemplo, 15 mil homens, mulheres e crianças foram exterminados, muitos até mesmo dentro da Igreja.  Quando um oficial perguntou a um representante do Papa como ele iria reconhecer um herege dos crentes verdadeiros. A resposta foi “Matai-os todos. Deus reconhecerá os seus”.  O próprio  representante papal escreveu orgulhoso a Inocêncio III que “nem idade, nem sexo nem posição foram poupados”.

2.2   Comentário

0 autor do texto quer atacar a Igreja sem se certificar de que os ataques são fundamentados. O episódio final por ele citado é lendário ou falso como se verá adiante. Isto permite ao leitor pôr em dúvida os dizeres antecedentes, mencionados sem indicação de fontes, no estilo de outros ataques à Igreja preconceituosos. Eis o que uma reflexão objetiva e serena sugere: a expansão dos cátaros, violenta como foi, não podia deixar do provocar represálias tanto de parte da Igreja como do lado do poder civil pois impugnava não somente a fé, mas também a vida conjugal e até a própria vida humana aprovando o suicídio.

Mais: os ataques dos cátaros deviam provocar a réplica do poder civil também pelo fato de que na Idade Média Igreja e Estado se achavam unidos: uma ofensa à Igreja era ofensa a uma instituição oficializada pelo Estado.

Até o século Xl inclusive, a Igreja reprimia os hereges expondo-lhes a verdadeira fé1 , e, quando parecia oportuno, impondo sanções do ordem espiritual como a excomunhão e a reclusão claustral. Todavia as invectivas dos cátaros e de outros hereges no século XII levaram os Bispos a inculcar as autoridades civis o dever de conter os avanços da here­sia. Daí resultaram as cruzadas contra os adversários da fé (e da ordem pública) como algo de necessário ou como obrigação de consciência. Para os medievais a defesa armada dos valores espirituais não somente era lícita, mas se impunha como dever do cristão. Este dado deve ser levado em conta pelo historiador que não queira cometer injustiça contra seus antepassados.

Como dito, há autores que preconcebidamente exageram a viruilência das guerras religiosas; falam sem citar documentação e sem discernimento de fontes. Tal é o caso do Carlos Guimarães, que transmi­te a lenda do Béziers como se fosse fato histórico.

Eis como se podem reconstituir os acontecimentos:

Os cátaros se estabeleceram no forte de Béziers em 1209. A Igreja e o poder civil tinham interesse em coibir os avanços dos cátaros, pois não somente deterioravam a fé, mas tumultuavam a vida pública. Por conseguinte os ocupantes do forte do Béziers foram abordados por vias pacíficas e persuasórias para se renderem. Como resistissem, o Papa lnocêncio III (1198-1216) ordenou que se movesse uma Cruzada contra eles.  Ao chegarem diante de Béziers os chefes dos cruzados encontra­ram a resistir-lhes na cidadela não somente albigenses, mas também alguns católicos. Não sabendo como distingui-los, diz a anedota, teriam perguntado ao legado do Papa, Arnaldo Amalric, abade de Cister, o que haviam de fazer.  E o monge teria dito: “Caedit eos, novit enim Dominus qui sunt eius – Matai-os todos, pois Deus saberá reconhecer os seus!”

Tomada a cidadela, houve cruéis cenas de assassínio e pilhagem. Quanto ao número das vítimas, uns falam em 100 mil, outros em 60 mil, outros em 20 mil; este último número ainda parece exagerado, porque mais da metade dos mortos encontrava-se na igreja da Madalena, onde não cabem nem 5 mil pessoas.

Em qualquer hipótese, a carnificina não foi ordenada pelo Papa nem sequer pelos chefes militares da expedição, mas por gente que se tinha introduzido no exército dos cruzados.  Com efeito; a frase atribuída ao abade de Cister é considerada apócrifa por Augusto Molinier, historia­dor do Languedoc, bom insuspeito pelo seu notório anticlericalismo: “On doit déclarer absolument apocryphe ce mot barbare”. Efetivamente, há numerosas crônicas do século XIII, escritas por testemunhas verídicas do saque do Béziers, e nenhuma delas registra tal frase. Ele só aparece em obras do Cesário, monge alemão que escreveu a duzentas léguas do teatro das operações, confiado em informações de origem albigense. Os historiadores afirmam até que ela nem podia ser pronunciada, porque o assalto a cidadela foi efetuado por uma  fração do exército dos cruzados, sem o conhecimento dos principais chefes.

Como se vê, a história pode ser cultivada de maneira tendenciosa, de sorte a desfigurar injustamente personagens e instituições. O leitor e o estudioso de história procurarão sempre  averiguar a idoneidade e a credibilidade das obras que consultam a fim de “não engolir gato por lebre”!

 

2.   Após a guerra anticátara

3.1 O texto do artigo

“A guerra cruel durou cerca de quarenta anos.  Quando terminou, toda a Europa caiu numa espécie de modorra e barbárie”.

3.2  Comentário

 Tal afirmação é abertamente tendenciosa, não cita exemplos ou fatos concretos devidamente documentados, mas afirma gratuitamente – Eis a apreciação feita por Karl
Bihlmeyer e Hermann Tuechle na sua História da Igreja, vol. II, ed. Paulinas, 1964, pp. 340s

 

fonte:

Bettencourt, D. Estevão, osb, Revista  “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”  - Nº 479, 2002, p. 175

A propósito:

CEREJEIRA, MANUEL GONÇALVES, A Igreja e o Pensamento Contemporâneo. Coimbra, 2º ed.  1928.

GAUBERT, HENRI, Les Mots Historiques qui n’ont pas été prononcés, p. 27s.

GUIRAUD, JEAN,  Histoire partiale.  Histoire vraie, Tomo I, c. 23s.

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