Pronunciamento de José Sarney em 27/05/2014

AutorJosé Sarney (PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro/AP)Data27/05/2014CasaCongresso Nacional TipoPronunciamento 

    O SR. JOSÉ SARNEY (Bloco Maioria/PMDB - AP. Pronuncia o seguinte discurso. Com revisão do orador.) - Exmo Sr. Senador Walter Pinheiro, que preside esta sessão, para satisfação de todos nós; Deputado Federal Anto- nio Imbassahy, que também requereu, na Câmara dos Deputados, esta sessão; Deputado Nelson Pellegrino. Eu queria, com muito prazer, saudar a Superintendente das Obras de Irmã Dulce, Maria Rita Pontes, essa criatura de Deus tão boa, tão generosa, que tem seguido os passos sob a proteção da sua tia para a continuidade das obras de Irmã Dulce. Quero saudar também o representante do Governador do Estado de São Paulo, Exmo Sr. Deputado Federal Duarte Nogueira; o Sr. Ministro dos Transportes, meu caro amigo César Borges; o Sr. Minis- tro do Tribunal Militar, Almirante-de-Esquadra Alvaro Luiz Pinto; o Sr. Presidente das Obras Sociais Irmã Dulce, Ângelo Calmon de Sá, ex-Ministro da Indústria e do Comércio; o Presidente da Câmara de Salvador, Paulo Câ- mara; e as demais autoridades que aqui se encontram.

 

    

    Meus senhores e minhas senhoras, Coelho Neto dizia que dos santos não se lembra, não se recorda nem se comemora o dia do seu nascimento. A data que devemos comemorar é o dia da sua morte, em que se li- berta da vida e fica eterno.

    Irmã Dulce, frágil como uma pétala, débil como uma folha levada ao vento, mas plena de bondade, lu- tando até para respirar, lutando sempre pela sua grande causa, que era a causa dos pobres. Foi essa a Santa que eu conheci e cujo centenário de nascimento nós celebramos aqui - ela, que já é eterna.

    A Beata Irmã Dulce nasceu em 26 de maio de 1914, há 100 anos, em Salvador, na Bahia. Seu nome civil também era Maria Rita.

    Sua infância é marcada pela perda da mãe aos 7 anos de idade - eu quis trazer um pouco, detalhada- mente, algumas coisas da vida da Irmã Dulce, porque, vendo a sua vida, construímos a figura que ela foi e que ela é. As tias Madalena e Georgina, muito religiosas, vão morar com a família. Influenciada pelo pai, que sempre apoiou as obras de caridade, começa, menina ainda, a ajudar os pobres e os enfermos, a quem logo acolhe na casa do pai, no bairro de Nazaré, que fica conhecida como “Portaria de São Francisco”.

    Aos 13 anos, sente a vocação religiosa e tenta entrar para o Convento de Santa Clara do Desterro, mas é recusada pela idade. Depois, para ser obediente ao pai, cursa a Escola Normal e, aos 19 anos, a vocação reli- giosa lhe faz tomar o hábito de Terceira Franciscana, recebendo o nome de Irmã Lúcia.Em seguida, entra para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, na cidade de São Cristóvão, em Sergipe. Recebe o nome de Irmã Dulce, em homenagem à sua mãe.

Em 1934, tem a missão de trabalhar na abertura do Sanatório Espanhol - atualmente Hospital Espanhol

- de Salvador, e, ali, ela é sacristã, porteira, enfermeira, responsável pelo raio X e por tudo. Faz, na Farmácia Galdino, curso de Prática em Farmácia, de maneira que pode passar a preparar os medicamentos que desde cedo se acostumara a manusear no atendimento aos doentes.

    Com apenas seis meses de trabalho, no entanto, a Superiora Provincial lhe dá nova missão: ser professo- ra no Colégio Santa Bernadete, da Congregação, no Largo da Madragoa, próximo à favela de Massaranduba. Obediente, dedica-se à tarefa, mas logo se revela uma professora sem autoridade com os alunos e mais preo- cupada com as necessidades dos moradores da região. Transforma-se quando chega a hora de sair do colégio para trabalhar na catequese. Pede licença para criar um curso noturno para os operários na sede do Club de Regatas Itapagipe. Assim, a Madre Provincial a libera do ensino e a entrega aos pobres. Confessa a uma Irmã:

“Naquele momento, a minha vida começou.”

Um dia, ela é chamada pelo Arcebispo de Salvador:

“A senhora tem feito catequese nas fábricas. Isso não é decente para uma religiosa, estar entre homens que usam calções e mostram as pernas nuas.”

Então, Irmã Dulce responde:

“Como é que posso olhar para as pernas dos operários, se eu tenho sempre, entre as mãos, a imagem do Sagrado Coração de Jesus?”

    Funda uma biblioteca. A gente vê todo dia a Irmã Dulce, a capacidade dela, fundando, criando coisas. Diz o registro do Colégio Santa Bernadete:

“Na tarde de 6 de dezembro de 1935, na presença do nosso Vigário e da nossa Madre Comissária, a nos- sa irmã Dulce inaugurou uma biblioteca para os operários com 50 livros”, doação dos missionários que ali trabalhavam.

    No seu trabalho entre os operários e moradores, especialmente os doentes, vê nascerem os Alagados, as palafitas que se estendiam diante da península de Itapagipe. Seu trabalho é interrompido entre junho e agosto de 1936 para se submeter a uma cirurgia na garganta - que a deixará com a voz frágil, para uma combinação perfeita entre ela e o seu corpo.

    Preocupada com os doentes, cria um posto médico numa casa abandonada junto à Oficina Baiana de Navegação, em Itapagipe. Embora encontre casos de tuberculose, constata que os maiores problemas não são esses, mas os problemas da pobreza, a desnutrição e a verminose.

    Com seu confessor, Frei Hildebrando, dos Frades Menores de São Francisco, grande empreendedor e líder da Congregação Mariana de São Luís, constitui em outubro a União Operária São Francisco, que depois veio a ser o Círculo Operário da Bahia.

Na festa da Assunção de 1937 professa votos perpétuos.

 

    Em 1939 inaugura o Colégio Santo Antônio, vinculado ao Círculo Operário,para mais de 300 operários à noite e mais 300 filhos de operários pela manhã. No ano seguinte escreve à Superiora Geral:

“Desde 1936 até agora, tenho [...] sob meus cuidados o ambulatório, a farmácia, a escola, as oficinas [...], filhos de operários. [...] Posso lhe garantir que até hoje me sinto feliz, muito feliz! Jesus tem sido muito bom para uma pobre pecadora como eu.”

    Um dia, ao cair da noite, ela é procurada por um menino de rua com uma crise de impaludismo. Não tem onde abrigá-lo. Lembra-se que na Ilha dos Ratos, um local afastado, há algumas casas vazias. Invade uma delas. Logo surgem outros casos de doentes sem abrigo. Um deles, um tuberculoso agonizante. Para ele invade ou- tra casa. Logo são cinco as casas invadidas. Mas Irmã Dulce é expulsa. Faz construir muros nos arcos da rampa da Igreja do Senhor do Bonfim, para ali transferir os seus doentes. Também é expulsa, porque não podia fazer aquilo. Então, ela os leva para um mercado abandonado, o Mercado do Peixe.

    Forma-se Oficial de Farmácia e Auxiliar do Serviço Social. Inicia a Obra do Quilo, em que cada família pode contribuir na doação de 1kg de alimento para apoio às famílias carentes. Então, ela funda três cinemas: Plataforma, São Caetano e Roma, para, com a renda, auxiliar a manutenção de suas obras sociais.

    Em 1947, é a primeira Superiora do novo Convento de Santo Antônio, próximo ao Largo de Roma. Faz construir nova sede para o Círculo Operário - ela está sempre construindo coisas, não para; ela está sempre querendo fazer coisas em favor dos pobres e das pessoas - e para a Beneficência Operária, sem receio de pedir a poderosos e humildes, indiferentemente.

    As doações não sendo suficientes, consegue empréstimos: primeiro, no Banco do Brasil; depois, com o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários. Na inauguração, aparece entre seus benfeitores sua irmã e constante companheira, Dulcinha, mãe de Maria Rita - que também conheci muito estreitamente e com quem tive grande admiração e amizade -, que viria a ser a mãe da sucessora da Irmã Dulce, Maria Rita.

    Mais uma vez ameaçada de expulsão, transfere, em 1949, seus doentes para um pouso fixo de 70 leitos, instalado onde era o galinheiro do convento, com obra realizada por Norberto Odebrecht , construtor também da nova sede do Círculo Operário.

    Atende aos presos da Cadeia dos Dendezeiros, conhecida como Coreia - é o tempo da guerra na Ásia - por suas condições precárias.

    Cria o Serviço de Alimentação do Comerciário que fornece almoço por dois tostões, no prédio do Cír- culo Operário.

    Em 1959, irmã Dulce deseja construir um hospital e um abrigo permanente que escapem da improvisa- ção com que ela vivia e aquele tormento com que ela peregrinava em favor dos pobres. Os Estatutos do Cír- culo Operário da Bahia não permitem que ela assuma a tarefa. Assim, na reunião de 26 de maio - Irmã Dulce fazia 45 anos - é fundada a Associação Obras Sociais Irmã Dulce. O nome não é o que ela deseja, mas a decisão é tomada pela Assembleia dos Fundadores, que tomam o cuidado de ouvir o Cardeal Primaz, Dom Augusto Álvaro da Silva. A Associação se instala em 15 de agosto, festa da Assunção e 25º aniversário da profissão reli- giosa de Irmã Dulce.

    Em nove meses a obra fica pronta e, em fevereiro, inaugura o Albergue Santo Antônio, com 150 leitos. Os médicos logo aconselham a separar abrigo e hospital. Num terreno vazio que lhe é doado, instala um pa- vilhão onde ela acolhe idosos e tuberculosos em fase terminal. Numa visita aos Estados Unidos, ela consegue, naquela sua constante peregrinação, doação dos equipamentos e a construção de um Centro de Recuperação de Menores Abandonados.

Em 1963, Odylo Costa, filho teve seu filho assassinado, Odylinho. Odylo era um grande amigo meu, posso

dizer meu irmão. Sua reação é iniciar uma campanha em O Cruzeiro a favor dos menores abandonados. Irmã Dulce, então, lhe escreve uma carta:

“[Seu] apelo já o ouvi alguns anos atrás, da boca de um rapaz de treze anos, um pequeno jomaleiro, es- fomeado, doente, tuberculoso: 'Irmã, me ajude'. A tal apelo, graças a Deus, pude responder e continuei a responder, enquanto Deus me permitiu. É disso que desejo falar. [...] Conte com meu apoio.”

    No ano seguinte, instala o Centro Educacional Santo Antônio, onde ela atende 300 crianças no Municí- pio de Simões Filho.

    Ainda em 1964, a nova Madre Provincial cria um dilema para Irmã Dulce: decide fechar o Convento San- to Antônio e exige que as irmãs se recolham diariamente ao Colégio Santa Bernadete, pois é preciso observar a clausura. Resiste e ouve uma decisão dolorosa:

“Peça para ser desenclausurada [...] De qualquer maneira é preciso proteger a Congregação do grave perigo que as obras sociais representam!”

 

    A situação é submetida ao Arcebispo de Salvador, Dom Eugênio Sales. De volta de Roma, onde partici- para de uma sessão do Concílio Vaticano II, ele encontra uma carta das dirigentes da Irmandade insistindo na solução do problema. Com a solução nas suas mãos, enfrenta mais um desafio: a exigência de que Irmã Dulce, se ficasse no hospital, desenclausurada, abandonasse o hábito da congregação. Irmã Dulce lhe declara:

“Nunca tive a intenção de me separar, nem a terei. Quero morrer como religiosa, membro da nossa con- gregação”.

Dom Eugênio coloca Irmã Dulce, que ficou sozinha nas obras sociais, sob sua obediência direta e deixa que ela escolha o modo de se vestir.

    Desde a década de 50, todos a tratam como uma santa. Sua reação é de humildade. Em 1971, um jor- nalista lhe pergunta:

“Irmã Dulce, a senhora é uma santa?”

E ela responde:

“Não, meu filho. Eu sou uma pobre filha de Deus”.

    Todo o dinheiro que recolhe vai para as suas obras. Quando tem necessidades pessoais, um par de sa- patos, óculos, ela pede às superioras da Ordem.

Em 1975, a Provincial é substituída. Irmã Dulce pede reintegração plena:

“Quando Madre Emília Rosa [...] retirou as irmãs do Convento de Santo Antônio, vários sacerdotes e ou- tras pessoas me solicitaram que eu me filiasse a outra congregação ou fundasse uma nova. Não aceitei. [...] Agora, acredito que a atual Provincial e seu Conselho nada tenham contra a reintegração de uma irmã que, durante dez anos de desenclaustro, permaneceu fiel a sua vocação.”

    O Cardeal Dom Avelar Brandão, novo Arcebispo de Salvador, intercede por ela. São consultados Roma e o Papa Paulo VI. Ela é reintegrada. Ao ser cumprimentada pelo retorno, ela diz:

“Irmã, eu aceito as congratulações, mas não posso dizer que voltei, porque eu nunca fui embora daqui”.

Logo em seguida a esta alegria, sofre ela a perda do seu pai.

    Em 1979, recebe nos Alagados a visita de Madre Teresa de Calcutá. No ano seguinte, vem ao Brasil e a Sal- vador o Papa João Paulo II, o nosso novo Santo João Paulo II. Ela participa da recepção no aeroporto e depois, na grande missa rezada no centro da cidade, a multidão, quando ela chega, grita e aplaude seu nome. O Papa lhe dá uma coroa do Rosário. Ela nunca contou o que eles conversaram, mas disse que sentia muita vergonha ao ouvir toda aquela gente gritando pelo seu nome. Ao despedir-se no aeroporto, João Paulo II lhe recomenda:

“Continue, irmã, mas cuide de sua saúde. É necessário que a senhora se poupe um pouco mais”.

    Dom Avelar e alguns conselheiros das Obras Sociais levantam o problema das responsabilidades traba- lhistas da organização e da necessidade de transformar o seu status jurídico. Assim, em 1981, é criada a Funda- ção Irmã Dulce. Algum tempo depois, ela inaugura o novo Hospital Santo Antônio, com 400 leitos, e escreve a Ângelo Calmon, Presidente da Fundação, pedindo que ele não permita que o hospital se transforme em hos- pital do INPS - não é INSS, como hoje - ou de outra autarquia.

“Que o Santo Antônio seja sempre para o indigente e para o necessitado”.

Em 1984, preocupada com quem continuaria sua obra, cria a Associação Filhas de Maria Servas dos Pobres.

    Sofrendo graves problemas de saúde, inclusive respiratórios, durante mais de 50 anos sua figura frágil mantém-se incansável.

    Mas, no começo da década de 90, seus problemas se agravam. É sucessivamente levada ao Hospital Por- tuguês e ao Hospital Aliança, mas ela deseja ficar com os pobres, e é transferida para um quarto especialmente preparado como UTI.

    Ali, eu a visitei, muitas e muitas vezes. E, ali, também, foi visitá-la o Santo Papa João Paulo II, em outu- bro de 1991. Ela já fala com muita dificuldade - submetera-se a uma traqueotomia - e lhe pede perdão por não recebê-lo corretamente. O Papa lhe dá a bênção apostólica e, na saída, comenta com Dom Lucas Neves, o novo Cardeal Primaz do Brasil:

“Este é o sofrimento do inocente. Igual ao sofrimento de Cristo”.

 

E, dia 13 de março de 1992, depois de 16 meses de agonia, Irmã Dulce subiu ao céu.

    Seu corpo é sepultado na Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Eu estive no seu sepulta- mento - e confesso que sempre foi com grande emoção que tive uma estreita amizade e relacionamento com Irmã Dulce - e, nesse momento, eu tive uma grande satisfação: Maria Rita retirou do seu caixão a bandeira que o cobria e me deu. Disse:

“Leve para o Museu do Maranhão, para a sua Fundação.”

    Ela lá está, mas eu acho que é do meu dever - eu já disse isso a Maria Rita -, algum dia, trazê-la de volta à Bahia, para ela ficar, lá, na sede das obras da Irmã Dulce.

    Em 10 de dezembro de 2010, o Papa Bento XVI emite o Decreto de Beatificação, que se efetiva no dia 22 de maio de 2011, depois de ela ter sido reconhecida como venerável.

    Os santos buscam a santidade, seja diretamente, como Santa Terezinha, seja indiretamente, como São Francisco de Assis - para usar exemplos caros à Irmã Dulce. Essa via é um caminho de sacrifício, e Deus os põe à prova.

    Irmã Dulce nos deu o exemplo da caridade e da virtude esquecida. A sociedade capitalista gera valores materiais e negligencia os valores espirituais. Irmã Dulce era uma tocha permanente, que brilhava para lem- brar que não podemos ficar, somente, no usufruto dos nossos bens, sem pensar no universo que nos rodeia, nos miseráveis, nos pobres, nos deserdados.

    Irmã Dulce, num momento de religião ideologizada, mostrou que “o reino de Deus não é deste mundo”. Nunca deixou, nunca abandonou a sua fé e a sua crença na sua religião. Jamais se deixou envolver por qualquer outro chamamento de natureza política, ou de natureza material, ou de qualquer outra natureza. Ela

sempre foi o que ela é: uma santa.

    Ela era o cristianismo sem adjetivos, era uma esmoler dos doentes. Filha do coração de Cristo, essa mu- lher era uma força da sua fé.

    Por amor de quem ela trabalhava? Por amor de quem ela sofria? Por amor de quem ela sofria tanto e fa- zia tanta penitência? Certamente, era por amor de Deus, por amor dos homens, como dizia São João, que disse que, nas últimas horas, Cristo amou os homens até o fim. Está no Evangelho de São João.

    O grande amor de Deus fez com que, no Brasil, tenha nascido e vivido criatura tão boa, das melhores almas da Humanidade.

    Irmã Dulce era uma flor de amor e de bondade, esse desejo de ser um pedaço de Deus nas ruas de Sal- vador da Bahia. Doce como os santos, santa como os profetas.

    Eu tinha conhecimento da obra social de Irmã Dulce. Sabia da verdadeira abnegação dessa alma inigua- lável. A comunhão do nosso espírito consolidou-se quando a conheci pessoalmente, em Salvador, como Pre- sidente. Vi, então, como dizem os clássicos, “de olhos vistos”, a ação de uma mulher de físico frágil, a conduzir com espírito forte uma das obras mais delicadas a que um ser humano pode se dedicar - a integral, gratuita e despojada de vaidades ajuda ao irmão pobre e despossuído.

    Visitei-a sempre, algumas vezes no anonimato. Vi seu sofrimento e, ainda hoje, me recordo com que emo- ção, poucos dias antes de ela falecer, eu tive a oportunidade de, olhando-a naquele sofrimento, no que não era cama - o seu leito era quase uma cadeira -, para lhe prestar uma homenagem, lhe dizer:

“Eu sou indigno de fazer outra coisa, senão de lhe beijar os seus pés.”

Ali, eu beijei os pés de Irmã Dulce, ajoelhado.

    A amizade que tínhamos um pelo outro era nutrida de nossos sentimentos comuns de amor próximo e só fez se consolidar com o passar dos anos, em benefício maior da parte que me toca, visto que a minha alma se engrandece na memória de alguém tão pura, como enriquecia, ontem, no convívio com uma pessoa tão abnegada ao próximo.

    A decisão de Irmã Dulce em voltar sua vida para o Amar e o Servir aos pobres foi a materialização da luz que iluminava sua alma. O espírito de Irmã Dulce simplesmente se corporificou naquele físico tão franzino. Ela foi uma dádiva do Criador aos brasileiros em geral, como exemplo de vida, e ao povo de Salvador, em particular, como presença solidária. Foi um anjo de bondade inigualável do Brasil que pousou nas terras da Bahia e que manteve em vida - e que nos legou ao partir - o ensinamento cristão do “amai-vos uns aos outros”.

    Em 1988, indiquei nossa Irmã Dulce para o Prêmio Nobel da Paz. Não estava somente atestando prefe- rência e escolha pessoais, eu expressava o que habitava no fundo da alma brasileira. Irmã Dulce era um sím- bolo, plena de bondade, as pequeninas mãos carregando tão pesado fardo, como seja a prática da caridade e do amor, lutando pela paz do corpo e rezando pela salvação do espírito.

 

    

    Exemplo mundial de caridade, serviu Irmã Dulce com sua vida para o alívio do sofrimento dos mais po- bres entre os mais pobres. Débil de saúde, mas muito forte de alma, deu um exemplo extraordinário de bon- dade e fé com suas obras sociais, sua projeção humana no Brasil inteiro. Tinha a paz cristã, a grande paz da vida dedicada ao próximo e aos mais necessitados.

    Visitei-a, como eu disse, quando se encontrava em seu leito de agonia. Impressionou-me seu semblante sereno, que transmitia uma grande paz interior de quem - mais do que se voltava para os braços do Criador - levava a consciência tranquila de ter sido cristã, de amar e de servir ao próximo.

    Que Deus a guarde. E hoje declaro o quanto rezei para que ela guardada fosse por muitos e muitos anos, para consolo dos que sofrem, dos aflitos que recebiam de sua mão bondosa o bálsamo a seus sofrimentos.

    Irmã Dulce continua viva pela sua bondade, pelos bons hábitos que plantou, pelo exemplo que deu, pelo caminho que abriu. Todos nós, brasileiras e brasileiros, lhe somos profundamente gratos. Eu, pessoalmente, tenho certeza de que Irmã Dulce nos acompanha, nos protege, nos auxilia. Santa, ela continua fazendo o bem.

    Quantas vezes eu ouvia Maria Rita me dizer que o Vaticano pedia mais um milagre da Irmã Dulce e eu dizia: eu sou testemunha, ela já me fez mil milagres. E o último deles, que eu lembrava, ao deixar o governo, eu ia sair, ia descer a rampa, numa situação difícil naquele tempo. Então, antes de sair, reuni minha família, minha mulher, meus filhos e não sei por que coloquei um lenço no bolso para as lágrimas.

    E disse a todos que estavam ali: olhem, vocês se preparem. Eu cumpri com o meu dever, fiz tudo o que eu podia fazer. Agora, vou descer a rampa do Palácio. Na frente, havia uma multidão incalculável. Metade vem para aplaudir o candidato que vai tomar posse, a outra metade vem para vaiar o candidato que vai tomar pos- se, mas todas as duas correntes vêm para me vaiar. E, nesse momento, peguei na mão da minha mulher e dos meus filhos e desci a rampa.

    Não sei por que, ao descer, senti ao meu lado alguém. Olhei, procurava quem estava ali, e era a Irmã Dul- ce. Tirei o lenço e, então, sacudi o lenço como quem se despedia. E aí, de repente, aquela multidão, de um lado e de outro, que vinha para me vaiar, começou a me aplaudir. Eu não sabia nem como. Vi as pessoas chorarem. E eu dizia: é um milagre da Irmã Dulce!

    Muito da resolução de Irmã Dulce pode ser compreendida em suas devoções. A primeira era pela Via Sacra, pela aceitação de Jesus Cristo no seu sacrifício. Sua ordem, as Irmãs Missionárias da Imaculada Concei- ção da Mãe de Deus, pregava a imitação de Maria Imaculada e o exemplo de São Francisco. A Santa Virgem Maria era seu modelo de humildade e caridade. E, desde cedo, quando buscara entrar nas Clarissas do Des- terro, considerava São Francisco de Assis como seu pai espiritual, que a inspirava na pobreza, no espírito de sacrifício. Com ele tinha um amor especial pelo Presépio. Sua acolhida dos doentes refletia o tratamento que São Francisco dava aos leprosos.

    Santo Antônio foi o santo de sua infância, que permaneceu por toda a vida. Na tradição da devoção po- pular, costumava conversar com Santo Antônio. Ela era íntima de Santo Antônio. Conversava muito com ele, aconselhava-se e com ele buscava e pedia forças para prosseguir nas suas obras. Contava de uma intercessão de Santo Antônio: uma noite, faltando comida para os pacientes, pediu-lhe ajuda. Ficou mergulhada na oração, pedindo ajuda a Santo Antônio, porque ela não tinha comida nenhuma dentro do convento.

    Recebeu um telefonema. Que telefonema é esse? De uma senhora que dizia que ia casar a filha, a filha tinha rompido o casamento, mas que a comida toda estava pronta e que ia mandar para as obras da Irmã Dulce. E a Irmã Dulce então trouxe, assim, pelas mãos de Santo Antônio, a comida que ela tanto necessitava naquela noite.

    Também era devota de Santa Teresinha de Jesus, que esteve na primeira porta da vida religiosa em que bateu, no Convento do Carmo de São Cristóvão. Lembremos que, naquela época, em 1933, ainda se estava muito perto do tempo da canonização de Santa Teresinha, que tinha sido canonizada em 1925, e de sua pro- clamação como patrono universal das missões católicas, que data de 1927. Sua busca da santidade, que faria pelo que chamou de “pequeno caminho”, contados na História de uma alma - e no conjunto de seus escritos que a levaram a ser declarada Doutora da Igreja --, seria um guia maior da vida religiosa de Irmã Dulce.

    A despedida de Santa Terezinha foi a seguinte: “Quero passar meu céu a fazer o bem na terra”. Poderia ser a de Irmã Dulce, que passou a vida a fazer o bem sobre a terra.

    Quero, ao despedir-me desta tribuna, recordar o momento em que, na Conceição da Praia, numa manhã de Salvador, o povo todo chorando, eu me incorporava, me associava a toda aquela gente para prestar a minha última homenagem à Irmã Dulce, levando minha mão, colocando-a já debaixo do altar onde ela era sepultada, pedindo que ela sempre estivesse comigo. E até hoje guardo comigo, levo comigo, no meu bolso, a medalha da Irmã Dulce, porque sei que ninguém, nenhuma santa brasileira, daqui e para o futuro, será tão brasileira, tão santa, tão boa, tão grande e representará o espírito do nosso País junto a Deus do que Irmã Dulce.

Muito obrigado. (Palmas.)

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