A vida e a obra de S. Inácio de Loyola

 

 


INTRODUÇÃO

A humanidade sentiu sempre grande atração pelos "heróis", pessoas que se destacaram em algum campo da atividade humana (a guerra, a exploração de novos continentes, as descobertas científicas, a arte, o esporte, etc.), até chegarem a ser, para muitos, modelos de humanidade. Desde os primeiros tempos da Igreja, os cristãos veneram a memória dos mártires, das virgens e dos outros "heróis da fé". Todos nós, em momentos de grande fervor, sonhamos com seguir o exemplo destes santos e santas.

O próprio Inácio de Loyola, na época da sua conversão, lendo as vidas dos santos dizia assim: "São Francisco fez isso. Pois eu o tenho de fazer também!"; "São Domingos fez aquilo outro. Pois eu tenho de fazer outro tanto!" (Autobiografia, n. 7). As vidas dos santos, porém, nem sempre atraem as novas gerações. Os escritos sobre os santos envelhecem. A santidade, o heroísmo cristão é sempre novo. Na América Latina, hoje, lembramos com carinho e admiração os mártires do século XX: Dom Oscar Romero, Pe. João Bosco Penido Burnier e tantos outros.

Gostaríamos de dizer, em palavras simples, quem foi Inácio de Loyola, um santo do século XVI, cuja obra, porém, continua viva no Brasil e em todo o mundo. No seu tempo foi muito amado pelos seus seguidores e respeitado por todos. Os depoimentos da época coincidem em apresentá-lo como um homem que tinha perfeito domínio de si mesmo. Inácio não era bom orador, mas falava com tanta convicção que atingia os corações. Era tão prudente e ponderado em suas opiniões que os reis e príncipes, os bispos e cardeais, e até o papa consultavam-no. Parecia estar sempre muito unido a Deus, embora se ocupasse das coisas desta terra.

Suas palavras nunca eram à toa, mas sempre justas e eficazes. Tinha verdadeiro e sincero amor por todos e mostrava-o por palavras e atos. Um amor suave e forte, terno como amor de mãe e firme como amor de pai. Tal é o retrato que dele nos deixaram seus contemporâneos. Algumas características do tempo em que Inácio viveu aproximam-no do século XXI que estamos iniciando:

1) No tempo de Inácio falava-se muito em "decadência". Os espíritos mais lúcidos tinham a impressão de que estavam presenciando o fim de uma época, que hoje chamamos "Idade Média". As instituições feudais1 haviam entrado em crise. Os conceitos de nobreza, cavalheirismo e serviço a um único senhor, rei ou imperador estavam desgastados. Hoje, falamos também em "crise" das instituições "burguesas". A maioria das pessoas não levam mais a sério as normas da etiqueta ou "boas maneiras", outrora ensinadas aos jovens. A expressão "dou-lhe a minha palavra" caiu em desuso, e até o "devido respeito às senhoras" provoca risos entre a juventude feminina. As idéias de autoridade, obrigação, dever... estão bastante desgastadas. As contínuas denúncias de corrupção generalizaram a suspeita contra todo governante, juiz ou político.

2) No tempo de Inácio, as descobertas geográficas fruto das grandes viagens marítimas (Bartolomeu Dias, Cristóvão Colombo, Vasco de Gama, Fernão de Magalhães...), tinham ampliado as fronteiras do mundo conhecido. A invenção da imprensa facilitou a difusão da cultura, até então privilégio das cortes, igrejas e mosteiros. Hoje, o desenvolvimento tecnológico reduz, cada dia mais, as distâncias do nosso planeta, descortinando a possibilidade de viagens no espaço extraterrestre. Telefone, rádio, TV e informática fizeram crescer vertiginosamente a comunicação entre os seres humanos, iniciando a era da "globalização".

3) No tempo de Inácio, havia um grande desejo de reformas. Sentia-se a necessidade de novas instituições, mais adaptadas aos novos tempos. Falava-se em "renovação" artística e cultural (era o apogeu do Renascimento), em "humanismo" (Inácio é contemporâneo de Erasmo de Roterdam), em restauração dos valores do mundo clássico (greco-romanos). Estava nascendo o "mundo moderno". Hoje, também, temos grandes desejos de renovação, mudança, transformação das estruturas. Redescobrimos a importância vital da natureza (Ecologia), exaltamos os valores primitivos (povos indígenas, cultura dos pobres, religiosidade popular), etc. Um mundo novo está querendo nascer. Ainda não temos claro como será, mas sabemos que não será igual ao mundo que hoje temos. Queremos que o mundo "mude a cara".

4) A Igreja no tempo de Inácio, não era alheia à profunda crise do mundo. Ela também estava em decadência e, portanto, necessidade de renovação. Um frade agostiniano, pouco mais moço que Inácio, chamado Lutero, desencadeará a Reforma protestante. Alguns dos primeiros companheiros de Inácio estarão presentes no Concílio de Trento, impulsionando a chamada "Contra-reforma", ou Reforma católica. Em nossos dias, a Igreja também está em crise de crescimento e atualização de suas estruturas. O desejo de viver e irradiar a fé cristã, no contexto de um mundo secularizado e "pós-moderno", exige dos cristãos a "inculturação" de sua fé, que possibilite a evangelização, das diversas culturas do nosso mundo, irreversivelmente pluralista. Se, por um lado, cresce o desejo de unidade entre as diversas igrejas cristãs (ecumenismo); por outro lado, o fenômeno das seitas, divide, cada vez mais, os cristãos. O Concílio Vaticano II reorientou os rumos do catolicismo contemporâneo.

5) Inácio de Loyola contemplou o mundo do seu tempo com olhos de fé, com uma vontade imensa de colaborar com o Projeto de Deus de transformar a realidade de pecado, em direção ao Reino. E nós? Continuaremos no otimismo ingênuo e com olhos de fé, ou ofereceremos todo o nosso ser ao trabalho.

INÁCIO, o peregrino absoluto

Inácio de Loyola (1491-1556) nasceu no País Basco (Espanha), um ano antes da descoberta das Américas. Era o final da Idade Média e a alvorada dos tempos modernos. Época de crises e mudanças, de desafios e questionamentos. Inácio foi o caçula dos treze filhos dos senhores de Loyola, família muito conhecida na região, pela fidelidade aos reis de Castela e pela fé católica.

Até os trinta anos de idade, o jovem Inácio viveu de maneira mundana. Como tantos outros jovens, foi dominado pelas paixões do jogo, das mulheres e das armas. Nunca foi um militar profissional, mas sim cavaleiro ou "gentil-homem" a serviço do vice-rei de Navarra, cujos interesses defendia nas guerras. A sombra dos grandes da época, aquele jovem sonhava com um futuro brilhante. Um acidente mudou o destino de Inácio. Era o mês de maio de 1521, o ano em que Lutero desligou-se da Igreja Católica. Inácio lutava corajosamente, em Pamplona, contra as tropas francesas que tinham entrado na cidade e assediavam o último reduto.

A resistência era impossível. Mas Inácio não quis se render, até que uma bala lhe quebrou uma perna e machucou a outra. Gravemente ferido, foi transportado até o castelo da família Loyola. Depois de muito sofrer nas mãos dos médicos, Inácio sentiu-se próximo da morte. Na festa de São João, o doente confessou-se e recebeu os últimos sacramentos. Mas quis Deus nosso Senhor que, no dia de São Pedro, de quem Inácio era devoto, começasse a melhorar. Teve que sofrer ainda mais para cortar uma protuberância numa perna, que lhe impediria de calçar a bota da moda, muito justa e elegante.

Por vaidade, Inácio submeteu-se à cirurgia, ainda que isso lhe custasse dores terríveis. No longo período de convalescença, Inácio pediu livros de cavalaria, passa-tempo de uma época que não conheceu a televisão. Mas não havia tais livros no austero castelo dos Loyola. Então, a cunhada de Inácio, Madalena, que era a mulher do irmão mais velho e, portanto, a senhora da casa, ofereceu-lhe dois livros religiosos: a Vida de Cristo e a Legenda Áurea (relato da vida dos santos).

Assim, forçado pelas circunstâncias, Inácio começou a ler os mais belos exemplos da tradição cristã. Lia, relia e copiava muita coisa num caderno. A leitura das vidas de Cristo e dos santos fez com que Inácio começasse a ter pensamentos piedosos ao lado dos pensamentos mundanos que costumava alimentar. Sonhava, por exemplo, em fazer grandes coisas para ganhar a admiração de uma princesa. Mas agora, ao lado dessas fantasias, começou a pensar: "São Domingos fez isto; pois eu tenho de o fazer também.

São Francisco fez aquilo; pois eu vou fazer outro tanto..." Refletindo sobre o que se passava no seu íntimo, foi caindo na conta de que os pensamentos sobre Deus e sobre os santos custavam a entrar no seu coração, mas depois deixavam-no contente e com muita paz. Pelo contrário, as vaidades do mundo entravam facilmente, mas depois o deixavam frio e descontente. Inácio começou então a ter a experiência de "discernimento espiritual", isto é, a saber distinguir a ação de Deus nele e a influência do mal e da própria fraqueza humana.

A conversão de Inácio não foi de um dia para outro, mas foi para valer. Depois de longos meses de convalescença, decidiu romper com a vida passada e iniciar uma vida nova. Deixaria a casa do seu irmão, pois os pais eram falecidos, e iria em peregrinação a Jerusalém. Viajaria na maior pobreza, fazendo muita penitência, a exemplo dos santos cujas vidas tinha lido. O irmão pediu-lhe muito que não fizesse isso, porque seria desperdiçar as muitas qualidades que Inácio tinha, e desfazer-se das possibilidades de "Triunfar na vida".

Mas Inácio, firme nos seus propósitos, abandonou o castelo de Loyola e pegou a dura estrada dos pobres deste mundo. Antes de chegar à Terra Santa, Inácio viveu um ano e meio como peregrino de Deus - o único Absoluto -, livremente despojado de todas as coisas relativas deste mundo. No santuário mariano de Aránzazu, durante uma vigília de oração, fez voto de castidade, diante da imagem de Nossa Senhora.

Na abadia de Nossa Senhora de Monserrate, padroeira da Catalunha, fez uma detalhada confissão de todos os pecados da vida passada e despojou-se da cavalgadura e das armas de cavaleiro. Na véspera da festa da Anunciação, 25 de março de 1522, procurou um pobre e entregou-lhe as roupas de gentil-homem, vestindo-se com uma simples túnica de peregrino. A caminho de Barcelona, o peregrino deteve-se na pequena cidade de Manresa. Pensava demorar apenas alguns dias para continuar as anotações. Mas terminou ficando lá onze meses.

Nesse tempo, Deus tratou Inácio como uma mãe alimenta seu filho ou como uma professora ensina as primeiras letras à criança. Comovido por tanto amor, "o homem vestido de saco" ou "o santo", como era chamado Inácio, entregou-se totalmente à vida de oração e de penitência, bem como às obras de caridade com pobres e doentes. Residia no hospital de indigentes, mas, para fazer oração, retirava-se a uma gruta escavada na montanha. Não faltaram dificuldades físicas (doenças) e espirituais (tentações, sobretudo de escrúpulos), mas a graça de Deus foi mais forte. Inácio saiu de Manresa iluminado e transformado interiormente, como Moisés ao descer do monte Sinai.

Foi em Manresa que Inácio começou a escrever o livrinho dos Exercícios Espirituais, anotando as coisas que mais o haviam ajudado. É uma espécie de método para rezar, examinar a consciência e buscar a vontade de Deus, sob a orientação de um diretor espiritual experimentado. O livro destina-se mais ao orientador de um retiro do que à pessoa que o faz, pela primeira vez. É difícil de ler, mas muito gostoso de viver e praticar.

São Francisco de Sales disse: "É maior o número de pessoas transformadas por esse livro do que o das letras que ele contém". Até hoje, continua ajudando os jovens que fazem retiros espirituais, seguindo o método inaciano, nas épocas de Carnaval, Semana Santa etc.


INÁCIO: Estudos e Companheiros

Convertido aos 30 anos de idade, Inácio de Loyola deixa a sua terra e dirige-se, feito peregrino, a Jerusalém. Pretendia ficar para sempre na terra de Jesus. Mas os frades franciscanos, responsáveis pela custódia dos Santos Lugares, não o permitem. Embarcando de volta para a Itália e a Espanha, Inácio busca a vontade de Deus a seu respeito.

Está com 33 anos. Já pensou em entrar numa Cartuxa, mas agora sente-se chamado a uma vida apostólica. Até então, o único meio de apostolado do peregrino tinha sido a conversa espiritual. Inácio desejava dizer a todos os homens do mundo que Deus é bom e que não há coisa mais linda nesta vida do que a amizade com Ele. Mas a maioria das pessoas, mesmo religiosas não se interessavam por conversas espirituais. E não faltou quem suspeitasse que o peregrino fosse um herege, pois onde se viu um leigo, sem estudos de Teologia, falar tanto de Deus?

O peregrino compreende agora que, para ajudar os outros na vida espiritual, precisa estudar. Por isso, decide parar em Barcelona e freqüentar as aulas de gramática latina. Tentado a relaxar no estudo, promete ao professor nunca matar aula, "enquanto em Barcelona achar pão e água para me manter". Em dois anos, aquele estudante pobre, atrasado nos estudos, mas teimoso, consegue concluir o equivalente ao nosso curso supletivo.

Orientando outras pessoas na experiência do retiro espiritual ou "Exercícios", o peregrino conquista para a vida apostólica quatro jovens: Calixto, João e Lopo, em Barcelona; e em Alcalá, onde Inácio e seus amigos foram estudar Filosofia, um rapaz francês, a quem chamam "Joãozinho". Em Alcalá de Henares, Inácio orienta muitas pessoas nos caminhos de Deus, especialmente por meio dos "Exercícios Espirituais". O sucesso é tal que desperta suspeitas nas autoridades religiosas daquela época conturbada por heresias e fanatismo religiosos.

Por três vezes, o suspeito é chamado a depor no tribunal da Inquisição. Os papéis, onde estão escritos os "Exercícios", são examinados. E o pobre peregrino é jogado no cárcere, na semana santa de 1527. Na cadeia, não deixa de falar de Deus, nem quer recorrer a um advogado: "Aquele, por cujo amor entrei aqui, me tirará, se for servido". Finalmente, é absolvido. De Alcalá, Inácio e seus quatro companheiros encaminham-se para Salamanca, onde funcionava a mais famosa universidade da Espanha.

No entanto, pouco proveito tiraram dos estudos, porque, falando sempre de Deus e das coisas espirituais, novamente levantam suspeitas e acabam, mais uma vez, na cadeia. Os juízes não encontram nada condenável na sua vida e doutrina, mas proíbem que Inácio explique a doutrina cristã, enquanto não estudar Teologia. Mal acaba de sair da cadeia, o peregrino carrega alguns livros num jumento e ruma para a melhor universidade do seu tempo: a de Paris.

Não sabendo a língua francesa, falará menos de assuntos espirituais e poderá dedicar-se mais ao estudo. Inácio fica outra vez sozinho, longe dos quatro companheiros, que tomarão outros rumos na vida. Em Paris, com 37 anos, estuda novamente o latim, porque os estudos feitos na Espanha não eram suficientes para passar no "vestibular" daquela universidade. Aprendeu, então, a importância do estudo bem feito, que exige "o homem inteiro". Os jesuítas não esquecerão essa lição.

Até hoje, a Companhia de Jesus exige de seus membros estudos sérios e demorados, antes de considerá-los formados. Em Paris, Inácio obtém os diplomas de bacharel e mestre em Filosofia e começa o estudo de Teologia. Não abandona totalmente os trabalhos apostólicos, mas os modera. Aos domingos, reúne um grupo de estudantes num convento de cartuxos. Orienta também os Exercícios Espirituais de alguns jovens mais desejosos de crescer no serviço de Deus.

Assim forma-se o grupo de companheiros que haveria de fundar a Companhia de Jesus. Inácio chama-os de "Amigos no Senhor". Constituem um belo exemplo de comunidade. Vale a pena recordar seus nomes:

Pedro Fabro, natural da Sabóia, companheiro de quarto de Inácio, no Colégio de Santa Bárbara. Depois de fazer os Exercícios Espirituais, decidiu ordenar-se sacerdote, para se dedicar totalmente ao serviço de Deus.

Francisco Xavier, espanhol, companheiro de quarto de Inácio e Pedro Fabro. Professor brilhante, foi o mais difícil de ser conquistado por Inácio. Chegará a ser o mais famoso missionário dos tempos modernos.

Simão Rodrigues, português, bolsista no Colégio Santa Bárbara. Foi atraído pela fama de santidade de Inácio. Chegará a ser o primeiro superior provincial da Companhia em Portugal e amigo do rei João III.

Diogo Laínez, espanhol, homem equilibrado, unia uma grande capacidade intelectual ao dom das relações humanas. Brilhará como teólogo no Concílio de Trento e sucederá a Inácio, como superior geral da Companhia.

Afonso Salmeron, espanhol, colega inseparável de Laínez, veio com ele da Universidade de Alcalá até Paris. Participará também do Concílio de Trento. Era o mais moço do grupo.

Nicolau Afonso, conhecido por "Bobadilla", nome de sua vila natal na Espanha. Professor em Paris. Ingênuo e temperamental, será o companheiro que haverá de dar mais trabalho a Inácio que, no entanto, o tratará sempre com paciência e humor.

Inácio e seus seis companheiros fizeram um voto na capela da colina de Montmartre: dedicar-se ao bem dos homens, imitando o Cristo em estreita pobreza; peregrinar a Jerusalém e, não conseguindo isso, apresentar-se ao Papa para que esse os enviasse ao lugar mais conveniente. Era o dia 15 de agosto de 1534, festa da Assunção. Estava jogada a semente do que viria a ser a Companhia de Jesus.

 
 

INÁCIO: A vida como serviço

Inácio de Loyola, um peregrino pobre, decide estudar para melhor ajudar os homens. Busca e aceita os companheiros que Deus lhe dá como "amigos no Senhor". E com eles faz voto de gastar a vida em favor dos outros, seguir Jesus Cristo pobre, ir a Jerusalém ou a Roma e colocar-se à disposição do Papa. "Ajudar as almas", isto é, as pessoas na plenitude do seu destino espiritual; seguir e anunciar o Cristo, em pobreza e caridade apostólica; numa palavra, servir será o único e grande objetivo da última parte da vida de Inácio.

Deixando os companheiros unidos, viaja para a Espanha a conselho dos médicos, que lhe recomendaram os ares da terra natal. Aproveitará para resolver assuntos familiares de alguns companheiros e para reparar o mau exemplo dado nos anos da juventude. Na ausência de Inácio, mais três companheiros juntam-se ao grupo, em Paris: os padres Cláudio Jaio e Pascásio Broet e o estudante de Teologia João Codure. Os três fazem os Exercícios Espirituais sob a direção de Pedro Fabro.

Inácio viaja da Espanha para a Itália. Em Veneza, conquista mais um operário para trabalhar "na vinha do Senhor": o bacharel Diogo de Hozes, que morrerá antes da aprovação da Companhia de Jesus. Veneza, 1536: o velho peregrino decide, mais uma vez, estudar. Continua os estudos de Teologia necessários para ordenar-se sacerdote e servir mais à Igreja. No começo do ano seguinte, chegam a Veneza os nove companheiros vindos de Paris.

Estão dispostos a cumprir a promessa de ir a Jerusalém. Mas as circunstâncias impedem a viagem. Não há barco para a Terra Santa, naquele ano. Em Veneza, Inácio e os companheiros que ainda não eram padres recebem a ordenação sacerdotal e se entregam ao ministério. Inácio, porém, adia sua primeira missa para a festa de Natal de 1538, "preparando-se melhor e rogando a Nossa Senhora que o pusesse com seu Filho". Para compreender esse gesto de Inácio, precisaríamos ter a devoção de um místico e a humildade de um pobre. De Veneza a Roma, os companheiros viajam a pé, como "sacerdotes pobres de Cristo".

A quem lhes pergunta quem são, eles respondem: "Somos a Companhia de Jesus". A expressão, no seu sabor original, queria dizer apenas: um grupo de companheiros que não tem outro chefe ou cabeça, senão Jesus. Inácio nunca poderia aceitar que fossem chamados "inacianos", mais sim "jesuítas". Na entrada de Roma, Inácio recebe uma grande graça, enquanto rezava na capela de La Storta. Em meio a um grande sentimento de alegria e consolação espiritual, pareceu-lhe ouvir Deus dizendo-lhe: "Eu vos serei propício em Roma; eu estarei convosco". "Viu tão claramente que Deus Pai o punha com seu Filho, que não podia duvidar disso."

E Jesus, carregado com a Cruz, toma Inácio consigo e diz: "Quero que tu nos sirvas". Este fenômeno místico fez com que Inácio se sentisse ainda mais unido a Cristo e que tivesse a firme certeza de que Deus aceitava a Companhia de Jesus. Em Roma, os primeiros jesuítas se colocam à inteira disposição do Papa. Desde sua origem, a Companhia de Jesus caracterizou-se pelo voto de especial obediência ao Vigário de Cristo.

A autêntica obediência inaciana nem sempre é bem compreendida. Trata-se de uma obediência incondicional, no que diz respeito à missão evangelizadora; mas não se deve confundir com uma obediência infantil, militar ou acrítica. Naquela época renascentista, Inácio chegou a dizer que se o Papa começasse por reformar a si mesmo e sua própria casa, muitas coisas melhorariam na Igreja.

Dizia isso na intimidade, com a confiança de quem amava muito a Igreja, como "verdadeira Esposa de Cristo Nosso Senhor" e "nossa Santa Mãe". No final do livrinho dos Exercícios Espirituais, acrescentou umas regras "para sentir, verdadeiramente, com a Igreja". O Papa Paulo III ficou feliz com aquele grupo de "padres reformados" que, com tanta devoção e disponibilidade, se lhe ofereciam para qualquer missão. Aprovou oficialmente a Companhia de Jesus aos 27 de setembro de 1540, e começou a enviar os companheiros em missão: Pedro Fabro à Alemanha, às voltas com a Reforma de Lutero, Bobadilla a Nápoles, Simão Rodrigues a Portugal e o grande Xavier à Índia.

O rei de Portugal pedia seis dos primeiros jesuítas. Mas Inácio protestou: "Se fossem seis para Portugal, quantos ficariam para o resto do mundo?" Ele, eleito primeiro superior geral da Ordem, passará o resto de sua vida em Roma, escrevendo as Constituições da Companhia, coordenando o trabalho de todos os companheiros, servindo à Igreja e identificando-se com o sentimento do Senhor: "A colheita é grande, mas poucos os operários". Inácio faleceu no dia 31 de julho de 1556.

Morreu "sem dificuldade alguma", dizem as fontes, quase sozinho, com muita paz. Tinha cumprido, com amor, sua missão na vida. Fundara e organizara solidamente "a mínima Companhia de Jesus". Não queria que esta tivesse grande número de membros, mas que esses fossem muito bons, que buscassem sempre "a maior glória de Deus", o "maior serviço", a missão mais urgente na Igreja.

Os "companheiros de Jesus" deveriam estar sempre prontos para viajar para qualquer parte do mundo, mas, ao mesmo tempo, conservar-se muito unidos entre si pela obediência e pela discreta caridade. Deus abençoou a primitiva Companhia com muitas e boas vocações. Na morte do fundador, contava já com mil companheiros, espalhados por todo o mundo, desde o Japão até o Brasil de Nóbrega e Anchieta.

Uma frase clássica resume as características peculiares das grandes figuras religiosas da Idade Média: "Bernardo amava os vales; Bento, os montes; Francisco, as pequenas vilas; Domingos, as cidades..." No início dos tempos modernos, quando os limites do mundo ocidental se estenderam pela descoberta da América e pela exploração dos mares do Oriente, Inácio de Loyola amou o mundo inteiro. Na sua terra natal, meu "pai-herói" chamava-se "Íñigo" (pronuncia-se "Ínhigo"). "Mas ele - conta Ribadeneira, seu primeiro biógrafo - tomou o nome de Inácio, por ser universal".

O jovem de hoje que quiser buscar a Deus, ser companheiro de Jesus e servir à Igreja, na escola inaciana, terá que abrir seu coração a todos os desafios, aos grandes problemas e às maiores esperanças dos homens de seu tempo.

Bibliografia

  • J. CI. DHOTEL, Quem és Inácio de Loyola? São Paulo, Edições Loyola, 1974. P. ARRUPE e outros, Os jesuítas: para onde caminham? São Paulo, Edições Loyola, 1978.
  • GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis, "Inácio nosso contemporâneo", Itaici. Cadernos de espiritualidade inaciana, n. 3 (julho 1990) 30-31.

 


1 "feudais", do feudalismo = sistema político e econômico vigente na Europa Medieval. O rei doava terras e dignidades aos nobres, que forneciam cavalheiros e soldados para o serviço do rei, em tempos de guerra. Os camponeses nasciam e morriam cultivando as terras dos senhores, sem possibilidade de progredir na vida.